sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quinto conto - O vendedor de Sonhos.

Bem gente, estou inspirado esses dias, aqui vai um conto que queria escrever já a um tempo. 
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O VENDEDOR DE SONHOS
Prologo

A chuva banhava meu corpo enquanto eu caminhava. Nada importava, nada mais era relevante, além da chuva que lavava minhas almas.

Eu segui caminhando por horas, ou talvez segundos, o tempo não importou para mim, só a chuva que purificava minhas almas e limpava meu corpo.

Antes me sentia sujo, em corpo e espirito, criatura banal, mas agora tudo fazia sentido, eu havia renascido de meu casulo. Meu casulo feito de sonhos despedaçados.

Não pense mal de mim caro leitor, não ouve mortes, não ouve dor física. Além da minha.  
Porem o que aconteceu dentro daquelas colunas circulares foi muito pior, porem muito melhor.

Eu vi o caos e o caos me viu, nos amamos e nos unimos, porem, tudo tem sua consequência.
Para mim, viver para sempre, graças as almas que agora vivem em meu corpo, em sua dança de êxtase, moradoras de meu coração.

Isso para mim não se tornou uma benção. Não existia mais meu antigo eu, agora nos éramos 3 almas, unidas em um só corpo, ou caso queira olhar por outro ângulo, um corpo com 3 almas, condenado a vagar pelo mundo. Nós somos legião, nós não somos mais humanos.

Caos, esse seria meu nome, o nome daquele que me amou, daquele que tocou minha alma com seu poder e que me tornou o que sou.

Agora, eu, Caos, sem sexo, sem cor, sem nação, sem passado ou presente,  sou um vendedor de sonhos, um mercador de artigos para o Destino.

Essa é a historia de como eu me tornei o que sou. Essa é a Historia anterior a chuva que lavou minhas almas.

Capitulo I

O sol banhava o campo de trigo que se alongava pelo horizonte, eu e meus amigos estávamos ali, sorrindo para o céu cor de safira, hora azul e hora róseo que se alongava em mais um nascer do dia.

Eramos três, Eu, Felipe e Camille.

Camille tocava sua Harpa como que estivera em um transe, com seus olhos fechados, privando o mundo do violáceo de sua íris, deixando que seus cílios pesados se tocassem. Seus longos cabelos vermelhos sendo acariciados pelo vento, sua pele de leite salpicada de sardas avermelhadas e seu sorriso que iluminava o mundo.

Felipe pintava seu quadro, imortalizando o horizonte com suas ligeiras e precisas pinceladas, misturando as tintas e alisando com sua pericia a tela branca que se transformava perante meus olhos.  Seus altivos olhos de uma profunda cor canela emoldurados pelo negro de seus cílios focavam hora o céu, hora a terra e hora a tela. Seus fortes braços e corpo definido, brilhando com o suor que escorria em sua pele bronzeada pelo sol, enquanto ele movimentava o pincel pela palheta de tintas e pela obra, quase viva, que começava a nascer. Seus cabelos curtos e negros brilhavam, pelo conjunto de suor, luz do sol e vida, que pulsavam dele para o mundo.

Eu estava ali, em cima da arvore que dava sombra para nosso pequeno paraíso, enquanto sentado olhando o nada, hora ouvindo a musica, hora vendo a pintura, deixava minha mente vagar pela poesia  que em um papel eu rabiscava ligeiramente, deixando minha mente fluir pelo infinito.

Não sou tão vivaz  e brilhante quanto Camille, nem tão atlético e alegre como Felipe, sou só eu,  Daniel, com minha pele cor de especiarias, meus cabelos castanhos encaracolados e meus olhos, que se desfocam e correm o mundo em minha mente.

Terminando de escrever, respirei, senti aquele momento que sempre ocorria, a pausa, a pausa que ocorria ao mesmo tempo em todos nos, seguida do momento onde algo era liberto, onde tocávamos a alma do mundo, onde o prazer era puro caleidoscópio de emoções.

Mirei o papel, a harpa começou, brilhante e calma introdução, seguida de traços firmes sobre a tela, seguindo o ritmo, seguindo a energia que nos circundavam, tudo estava novo, tudo era arte.

Minha voz começou quase por sua própria razão, cantando o poema que estava no papel, eu me sentia um maestro para eles, eu sentia a dança, eu cantava a dança que controlava o mundo, eu podia ver ela. Ali sim, eu me sentia vivo, unido ao todo.

“Venha  som, doce paixão.
Canto sobre o tempo.
Venha tornado, venha tufão.
Leve fúria do vento.”

Senti a mudança, junto com o fim de meu verso a harpa mudou, ouvi as furiosas pinceladas rítmicas. Comecei o segundo verso.

“De mar a mar, de luz a dor.
Liberte-se, correnteza de raios.
Vinde ligeiro, sobre o por-sol.
Vinde estrelas de março.”

Mudando para um lento e triste fim começamos em uníssono o terceiro verso, a tensão poderia ser sentida, o mundo nos ouvia, minha voz tocava a existência, esse foi nosso maior erro, tocar o intocado.

“E no final, ao som da tristeza.
Caia as flores de aço.
Caia rios de sideral espera.
Caia a luz sobre o mormaço”

Abri meus olhos, as flores caiam levadas pelo vento, a nuvem negra cobria o horizonte, os raios vibravam intensamente e uma nevoa branca cobria o mundo a nossa volta, vinda dos rios e lagos que nos circundavam.

Rimos maravilhados pelo que já havíamos descoberto a algum tempo, juntos, podíamos dançar com a existência, juntos, criando nossa arte, poderíamos pintar com as tintas de Deus e tocar o instrumento do Divino.

Minha voz era a voz do Destino, ou o destino controlava minhas palavras? Eu acho que era o único que se interrogava. Eu deveria ter pensando mais nisso.

O quadro estava pronto. Ele era lindo e aterrorizante ao mesmo tempo.

Ele era vivo.

Ele era uma foto da mente do Tempo.

Nos éramos muito imaturos para entender isso.

Rimos do poder em nossas mãos.

Capitulo II

Caminhando de volta para casa, margeando o rio que calmo fluía, conversávamos sobre banalidade até que ouvi a voz de Felipe, puxando de minha atenção.

Ele falava de um livro de seu pai, algo sobre magia, após mover o mundo a nossa volta, por que não tentar algo maior.

Ele falava com eloquência, pelo jeito tinha treinado. Seu sorriso e seus olhos dominavam todos antes mesmo de seus argumentos.

Eu não era imune a seu encanto.

Camille já parecia convencida.

Eu estava me fazendo de difícil. Ele não poderia se considerar um gênio.

Pelos planos deles seria simples.

Camille tocaria uma partitura que o livro pedia para ser tocada, enquanto um circulo com símbolos misteriosos seria escrito por ele sobre o pátio do templo.

Eu deveria falar algumas palavras, invocações para um Deus a muito esquecido.

Assim poderíamos receber o maior dos presentes, segundo o livro pelo menos.

Eu tinha algumas interrogações, e mesmo fascinado, e louco para fazer isso, tinha de me fazer de difícil. Interroguei sobre meus pontos principais.

Olhando com cara de desdém comecei.

Então, teremos que invadir o templo, no meio da noite, carregando a harpa de Camille.

Logo fui rebatido com duas verdades que já conhecia. Felipe era filho do Grã-Sacerdote do templo. O templo também possuía uma harpa em seu pátio.
Continuei logo depois, mesmo estando surpreso pela rapidez que me rebateram.

Vamos invadir o templo, para fazer um ritual, onde os efeitos podem ser, não sei, no mínimo estranhos, existindo a chance de sermos presos por invasão, filho ou não do sacerdote?

Vai haver uma festa, amanha a noite no palácio, eu finjo que estou doente, fujo das amas quando meus pais saírem. Disse Camilla com um sorriso de quem sabia que estava fazendo algo errado, mas divertido.

Felipe começou logo depois. Eu vou ficar limpando o tempo, como castigo por ter fugido semana passada e sido pego conversando com você.

Terminou rindo e olhando para mim fazendo uma careta de nojo e dizendo, imitando a mãe dele, plebeu imundo.

Todos rimos.

Eles tinham um plano bem bolado, eu estava sendo convencido.

Uma ultima pergunta. Disse com um tom mais serio.

E se esse “Maior dos presentes” não for algo que queremos?

Eles riram, ele olhou bem para meus olhos, dizendo. Logico que queremos ele, é o maior dos presentes, o maior de todos.

Eu estava convencido.

Nos encontramos então no templo, amanha pela noite?

Ouvi um sim em uníssono.

Preciso levar algo para o rito? Perguntei encabulado, não possuía muito dinheiro, afinal, um órfão não possui muitas coisas.

Nada além de sua voz.

Camille disse com um sorriso.

O mundo era simples.

As ilusões de nossas palavras e atos cobriam nosso mundo.

Eramos condenados indo até a forca.

O preço seria alto.

Porem eramos tão felizes.

Capitulo III

A noite caia pesada, estava eu, ali, mal vestido sentindo o frio do inicio da primavera. A nevoa poderia ser cortada com uma faca.

Como combinado fui até o portão lateral, com um medo cada vez mais crescente coloquei minha mão no ferro frio do portão. Colocando força nele senti a pesada barreira cedendo, abrindo a meu comando. O frio em minha barriga só aumentava, não sabia mais se era pela temperatura ou pelo medo de ser pego. Isso com toda certeza seria punido com bem mais do que açoites na praça, o que eu já estava acostumado naquele tempo.

Cruzando o jardim inicial, sentindo o aroma do jasmim e das gardênias que começavam a florir fui caminhando pelo caminho de pedra negra que levava até o pátio que iriamos usar, ele ficava escondido da vista do templo, coberto por arvores floridas de um vermelho intenso.

Sai do caminho de pedra, indo pela grama, paços curtos, olhos assustados, ouvidos atentos.

Passando pelas roseiras que roçavam minha pele, ferindo meus braços desnudos cruzei o terreno, entrando no pátio circular, contornado de colunas intercaladas, brancas e negras, mármore e granito, luz e sombras. A almas e o corpo.

No chão, mosaicos com um Sol e uma lua roubavam a atenção de seu oposto, a abóboda celeste, que em toda sua gloria, brilhava com estrelas argênteas.

Levei um susto que roubou minha voz, quando vi Felipe com um Cervo morto a seus pés, e um pincel grande em suas mãos. Ele estava praticamente banhado no sangue do animal. Enquanto concentrada, Camille se preparava já sentada a frente da Grande harpa de bronze que enfeitava o pátio do eterno eclipse.

Já estávamos começando sem você. Brincou Felipe com um sorriso.

Que nojo, por que matou o pobre animal? Disse olhando a cena tão estranha a minha frente.

Esta no livro, é a tinta para os sinais. Disse Felipe.

E você tinha que se banhar nele?

Sim. Pelo que parece tem de ser. Felipe fazia uma cara de nojo.

Rimos até ouvir o som da voz de Camille nos repeender.

Estamos atrasados, estou pronta, podemos começar? Disse com uma voz impaciente.

Vamos.

Me entregaram uma pagina do livro, Felipe mandou eu ir para o Leste, virado para o Oeste, e ao sinal, o velho sinal da pausa, começar.

A pausa durou um pouco, muitas respirações banhadas com o aroma ocre do sangue do Cervo,  misturado com o doce das rosas, gardênias e jasmins. O mundo era um misto de sensações. Tudo parou na grande pausa, em uníssono começamos.

O som da harpa era rítmico, forte, invocando não só o som, mas todos os sentimentos da alma humana. Ela inspirava medo e paz, amor e ódio, ira e harmonia, o desejo e a repulsa. Ela tocava com a alma, para almas.

Pude sentir o puxão para minha vez, comecei a recitar as palavras em uma língua que não conhecia, mas para mim tudo fazia sentido, mesmo não sabendo o significado das palavras, minha voz ganhava entonações doces e rígidas, com raiva e com amor, fúria e carinho, ganhando alturas como o grito dos trovões ou calmas como um murmurar de um rio.

Na minha frente Felipe, em transe desenhava símbolos que nunca havia visto antes, traçando tal qual um animal que caminha, e em vez de pegadas e marcas, tal qual um dançarino que corria em espirais a ribalta, traçando sinais ao vento com seus movimentos graciosos, os símbolos surgiam, traçando o chão do pátio.

O tempo passava sem que víssemos, o mundo corria hora com a velocidade da águia que bate suas asas no céu, hora com a velocidade das arvores que observam o mundo em seu lento crescer.

Tudo fazia sentido, tudo era incrível, o poder nos rodeava em espirais de fumaça e nevoa.

Com a luz da lua banhando nossos corpos, nossa arte, nossa união. Pude sentir o peso a nossa volta, a leveza no centro, percebi que não mais lia o papel, nem Camille lia a partitura, e a muito Felipe parou de copiar os traços. Estávamos em nossa dança, em nossa arte, em nosso momento.

Só continuávamos, então aconteceu. O Clarão.

O mundo se abriu em lua e sol, o mundo se dividiu em dois.

Do leste ao zênite o mundo era dourado e vermelho. Denso, belo e masculino, pingando o desejo pelo embate iminente, ali estava Felipe, em pé, os olhos brilhando com o fogo do sol, com o corpo vermelho do sangue do sacrifício, nu, olhando para mim com um sorriso que não lhe pertencia.

Eu estava com medo.

Do zênite até o oeste o mundo se tornou azul e prateado. Leve e húmido, belo e feminino, pingando calma e serenidade, morte ao mesmo tempo vida. Ali estava Camille, nua, em pé, com os olhos brilhando com os raios da lua. Sorrindo um sorriso que não lhe pertencia, com uma seriedade em seu rosto que eu nunca tinha visto nela.

Eu estava confuso.

Ambos apontaram para mim. Suas mãos se moveram em sincronia, e ambos sorriram, antes de falar em uníssono, como uma só voz.

Invocador,  ouça a voz do caos. Doce Daniel, ouvimos seu chamado, ouvimos o clamor de suas vozes. Fui despertado de meu sono para que vocês adentrem nas portas secretas. Para que cruzem o tempo, para que cruzem as definições.

Lagrimas corriam pelo meu rosto enquanto via o lento caminhar do universo em harmonia. Não eram camilla e Felipe, eles não estavam ali, o mundo, em sua nova harmonia me chamava, a musica que rege o universo agora podia ser ouvida alta e clara. Eu estava com dor.
Daniel, receba o maior dos presentes, receba o caos em seu coração. Receba a união plena. Torne-se Deus comigo, torne-se o  inexistente. Esse é o pagamento pelos sacrifícios a mim ofertados.

Ouça meu nome. Receba sua benção e maldição.

O nome foi sussurrado em meu ouvido, quente porem frio, húmido porem seco, calmo porem em fúria. Um nome tão longo que não pode ser dito por bocas humanas, porem tão curto que não pode ser entendido por ouvidos profanos.

Senti o mundo se dissolver, ou seria eu me dissolvendo no mundo?

Senti o dissolver da realidade, o inicio de minha sina.

Noite e dia, lua e sol, vermelho e azul. Felipe e Camille. Tudo se dissolveu e se uniu a mim.

Ali estava eu, em pé, no centro do circulo.

O sol brilhava em meu olho direito. A lua brilhava em meu olho esquerdo.

Meu corpo estava banhado com o sangue do Cervo. E meus dedos sentiam a dor por ter tocado a harpa tão intensamente.

Olhando a minha volta pude ver, Felipe jazia morto no chão a meu lado. Camille abraçava a harpa com seus olhos apagados. Ambos morreram, eles foram meus sacrifícios mais doces, porem, ainda estavam ali comigo, minha mente estava banhada com suas emoções, memorias, sensações, meu corpo lembrava de seus toques, suas dores, seus prazeres.

Eles estavam ali, agora não existia mais Camille e Felipe, agora não existia mais Daniel.

Eramos um só. Eramos tudo e nada.

Ouvi a voz do Deus sussurrando em minha mente.

Que esse seja seu premio, senhor do Destino a sua volta, que essa seja sua punição.

Qual é seu nome, Senhor dos sonhos e das conquistas?

Eu disse, com minha voz recém conquistada, que não só guiava a sinfonia a minha volta, mas pintava o que Deus pensou e tocava a sinfonia em todos seus instrumentos.

Caos, que eu seja o que me guiou e o que me envolve.

A chuva caia a minha volta.

Os sonhos de três pessoas morriam ali naquele pátio. Esses foram nossos sacrifícios.

Eu comecei a andar sem rumo, lavando minha alma, meu corpo e minha mente.

Eu havia renascido do  limiar do mundo. Eu havia contemplado o incontemplável, tocado o intocável.

Não havia mais tempo para mim, não havia mais sexo, não havia mais limitações, eu era tudo.

Hora homem, hora mulher, hora velho, hora novo, hora belo, hora feio. Eu era um sonho, ou um pesadelo. Eu era um Deus, vestindo roupas de sonhos e nevoas, colecionando historias para satisfazer meu coração, conhecendo destinos para entender o meu.

Eu me tornei um vendedor de sonhos, enquanto recebia meu pagamento em canções que ecoavam das almas humanas.

Eu me tornei  Caos.





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Quarto conto - A Mascara Branca



Bem gente, já tem um tempinho que não posto nenhum poema, cronica ou sei lá, acho que vou retomar isso. Espero que todos vocês (Cri cri cri cri) que me seguem (cri cri cri cri) curtam essa cronica. Beijos...

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A Mascara Branca.
Capitulo unico

Ele acordou sentido o peso da noite passada, poderia chamar aquilo de festa, poderia chamar aquilo de emboscada, tortura, mas fazer o que, preferiu chamar aquilo de Vodka de graça. Riu enquanto sua cabeça doía um pouco,  ainda meio tonto pela ressaca olhou com seus olhos castanhos a sua volta, bem, parecia um quarto, um pouco acima de qualquer quarto que se lembrava, e com 22 anos, bem, digamos que esse não foi o primeiro quarto misterioso que ele acordava. Sou uma puta, pensou enquanto olhava para o chão buscando suas roupas, já havia tomado ciência de que estava nu há alguns minutos, devia seguir o protocolo, riu enquanto revisava os passos que ele mesmo traçou depois de alguns mal entendidos. 

Olhou os tênis perto da escrivaninha, um pé da meia na cama, a cueca, bem não achou sua cueca e resolveu esquecer ela, olhou para o canto para encontrar sua camiseta, conferir para ver se era sua mesmo, polo preta e branca, confere. Suas calças jeans estavam difíceis de achar, mas ali, ele logo pode ver uma perna da calça saindo por baixo da cama. Se vestiu rápido, entre um cambalear e outro.

Após vestido olhou em volta, procurando um banheiro que talvez não existisse no quarto, bem, pelos deuses existia. Ele foi em direção do banheiro, entre flash’s de uma noite ainda caótica em sua mente, lembrava da festa, lembrava dos intermináveis  shot’s de vodka que continuavam chegando, lembrava daquele homem de olhos azuis profundos e cabelos negros como a noite, lembrava de ter de olhar levemente para cima quando estava perto do cara, alto, corpo definido, pele branca e  olhos profundos.

Lembrava de falar algo com ele, ou o cara falar com ele? Tudo era muito confuso começando dai, e só piorava. Lembrava de um lençol vermelho, dos corpos nus,  lembrava da mascara, uma mascara de ossos que circundava sua mente, sempre aparecendo, sempre absorta de seus pensamentos. Não queria pensar na mascara.

Entrando no banheiro olhou para o espelho, ignorou a marca roxa em seu pescoço, ajeitou os amassos na roupa com a mão, arrumou seu cabelo cor de cobre, sorriu angelicalmente para o espelho. O espelho já estava partido quando entrei no banheiro? Pensou confuso. Não tinha notado até então os cacos de espelhos concêntricos em um ponto. 

Voltou para o quarto, a tontura já havia passado, olhou para a cena a sua frente, tudo estava diferente de uma maneira diferente. Pensou, não de novo não.

A cama permanecia vermelha, mas não pelo lençol, pelo sangue que escorria e manchava o piso de madeira, marcas de luta por todo lugar, a cômoda virada, o armário aberto, marcas de cortes nas paredes, sangue espalhado pelo alvo da pintura, caos, morte, tudo cheirava a caos e morte.

A mascara, ela esta ali, rindo para ele, a mascara de ossos e nevoa, olhando no fundo de seus olhos, ele tinha de fazer parar. Pegou um vaso enquanto gritava, atirando contra a mascara.
Ouviu o som de estilhaçar.

Não do vaso, não só do vaso. Olhando viu, tinha acertado um espelho.

Começou a rir, gargalhar, como se acha-se graça de algo que só parte dele sabia, e essa parte não iria contar para ele. 

Passou as mãos sobre seu rosto, sentindo a sua pele lisa, sentiu algo em suas mãos, algo que não tinha notado antes. Sangue seco.

Novos flash’s da noite anterior passaram em sua mente. Tudo fazia sentindo a ele agora, aliviado ele sentou na cama.

Tirou da cabeceira da cama um cigarro, acendeu com um esqueiro que estava sobre a cômoda. Tragou profundamente e soltou a fumaça, enquanto olhando para o nada, com seus olhos vidrados, sentia a fumaça envolver ele, tudo agora fazia sentido.

Lembrou de ir para casa, sua casa, estava ali, seu quarto.

Lembrou de tirar a roupa e beijar a pele de seu companheiro casual. 

Lembrou de agarrar o cabelo dele enquanto mordiscava sua pele.

Lembrou de amarrar o mesmo a cama, enquanto riam juntos, pela antecipação.

Então lembrou da mascara, ali, com ele no quarto.

Lembrou dos gritos inumanos de seu companheiro.

Lembrou também do gosto metálico em sua boca, seus olhos selvagens de predador, as lagrimas nos profundos olhos de seu companheiro, e por fim, o silencio, o sabor doce do sangue, e o corpo inerte. A sim e a mascara, sempre a mascara de ossos.

Olhou para o corpo frio com olhos opacos, ali,  ainda amarrado na cama, olhou para a garganta dilacerada, lambendo os lábios lembrou, enquanto ficava duro pela memoria, de toda a diversão que tiveram na noite passada, ele e a mascara..

Tenho de arrumar o quarto, pensou.

Tenho de trabalhar hoje pela tarde. 

Sorrindo, olhou para a mascara que era refletida na janela de teu quarto, olhou para a floresta que circundava sua casa, pelo menos da vista da janela, e mandou um beijo para seu companheiro. 

Aquela mascara branca que sempre o acompanhou.