sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Segundo conto - CONCHAS, PAIXÕES, E MARÉS.

Oi gente, outro conto meu, postado de ultima hora, espero que aproveitem.

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1 – prólogo
Sobre Madeira e águas


No belo mar de Okinawa, as margens da plácida praia da Ilha Ikei, as águas calmas e transparentes reluziam ao sol na manha, uma balsa solitária com um pobre pescador buscava algo mais do mar do que alimento para o corpo, ele buscava alimento para o coração.

Em meios a falésias de rocha negra e pequenas ilhas que tal qual montanhas de pedras surgiam do mar com suas arvores e vegetação.

A pequena balsa de troncos velhos, onde as marcas de muitos anos no mar já se mostravam presente, seja nos crustáceos e mariscos presos a madeira ou simplesmente no velho pescador ali sentado, admirando o mar com uma concha prateada nas mãos colada ao ouvido, ouvindo uma pequena serenata de ondas e sons marítimos, peixes, a voz taciturna das baleias. Aquela não era uma concha simples, ele sabia disso, ele mesmo havia comprado ela a muito tempo. Olhando para a filha ao seu lado, 16 anos ela faria amanha, acariciou os longos cabelos lisos e negros da filha, fitando os olhos azuis como as ondas do mar, e dizendo em tom sereno disse.

- Filha, chegou o momento de contar uma historia para você, a nossa historia, a tua historia, quer ouvir?

A filha parada a sua frente acenou com a cabeça, se ajeitou na balsa para ouvir a historia confortavelmente, sempre fora um mistério seu nascimento, mas finalmente saberia, finalmente descobriria esse pequeno mistério que envolve sua familia.


2 – Inicio
A Concha de prata


Filha há muito tempo atrás, a 17 primaveras mais ou menos, eu era jovem, tinha meus 38 anos, estava no auge do vigor, porem não tinha conhecido ainda um amor, pescava a tempos nessas águas meu anjo, meu único amor vinha do mar, os peixes que pescava em minha ligeira rede, os mariscos que colhia ao mergulhar, ou perolas que vendíamos quando achávamos.

Filha, seu pai pescava muito peixe, e como não tinha familia para alimentar, e meus pais, seus avós a muito já tinham morrido, sempre sobrava muito peixe das pescas, logo naquele dia em especial consegui uma boa quantia e fui ao centro do vilarejo para comprar algo. Chegando nas ruas de terra batida cobertas e pedras pude ver num canto escuro uma pequena senhora no chão da praça, velha, com roupas gastas pelo tempo, ela vendia um único item, de longe só pude ver o brilho pálido do objeto sobre lençóis finos de Seda azul e vermelha.

Olhando para face dela dessa distancia pude ver um sorriso acolhedor, mas tambem toda pobresa em sua face, via um misto de fome e cansaço da vida, tal qual ágüem que por muitas horas carrega um grande fardo.

Perguntei por educação o que era aquele item em especial, ela olhou meus olhos, seus olhos eram estranhos, era a primeira vez que olhava olhos que modificavam de cor como um caleidoscópio, indo do negro ao azul, do azul ao amarelo e assim até o cinza, todas as cores em uma dança lenta convergindo para uma pupila negra e bela.

Olhando-me ela disse numa voz calma.

- Querido jovem, essa concha prateada é um tesouro antigo, ao encostar ele em seu ouvido poderá ouvir todos os sons do mar, as vozes dos seres místicos das ondas, a graciosa voz dos peixes, e o canto da profundeza das águas. Porem quando preenchida da água do mar a concha chama sua antiga dona, a filha do kami das águas, a Donzela vestida de Espuma, dizem meu caro que seu Kimono é feito da mais bela seda adornada com perolas e madrepérola, seus cabelos negros e lisos são adornados por uma belíssima coroa de coral vermelho. Suas mãos são delicadas como o toque do mar do verão. Jovem moço, dizem seu coração comanda tempestades ou doces ventos.

Filha, olhei nos olhos da pobre anciã e no momento pensei que por delírios da idade, ou crendices ela acreditava nas historias que contava, e me curvando para olhar a bela Concha de Prata, perguntei o valor.

Filha, ela me olhou com doçura e disse colocando ela em minhas mãos.

- Não a valor para você bom moço, não a valor.

Olhando a concha ainda filha, disse para ela que em troca da bela concha daria roupas para ela poder se vestir e se aquecer, mas ao olhar para o canto onde ela estava não a vi mais, e por algum motivo não me importei com a Anciã de olhos mágicos, só tinha olhos para a Concha em minhas mãos.


3 – Continuação
A Donzela vestida de Espuma


Filha, as luas se passaram, e eu fomos pescar, infelizmente não houveram muitos peixes nos dias que se seguiram, e fui a cada dia adentrando o mar aberto, perdido entre as redes que jogava ao mar, não percebi que o sol já estava baixo, mergulhando no oceano quando comecei a voltar para a praia. Ainda estava longe, quando os ventos começaram a ficar agressivos, revoltos como as nuvens que rondavam o por-sol. Num rápido movimento meu pequeno barco caiu nas águas frias, eu, lutando contra ondas que tingindas de escarlate pelo sol que se esvaia, consegui chegar a uma ilhota, e nela pude descançar a perda do barco, olhando minha pequena bolsa, pude ver que tudo que eu guardava, meus pequenos tesouros estavam lá, pergaminho de minha poesias, tinta, uma pena, e a concha prateada.

Minha doce filha, retirando a concha do tecido que a envolvia, olhei para o mar, a lua estava bela nos céus, coroada de estrelas que piscavam como archotes, por um segundo me lembrei da senhora idosa e do mito que me contou, rindo por um momento, olhei as ondas furiosas que batiam contra a praia, e juntando minhas duas mãos, segurei a concha, com uma solenidade irreal enchi-a de água, e com uma curta oração e reverencia coloquei na areia a concha. Rindo pois nada acontecia fiquei ali, obcervando o horizonte, olhando as nuvens velozes sobre a lua cheia, a espuma branca das águas, e a sensação de paz que a noite trazia.

Pude ouvir por um estante uma voz indecifrável, pude sentir minha filha por um instante a doçura inresistivel no ar, e das profundesas do mar, vi, um brilho tão intenso que ofuscava a Lua. Ali minha filha, pude ver emergir uma dama de beleza sem igual, sua pele era branca como o jasmim, e seus olhos azuis como o céu primaveril, as sedas de delicado tear eram de cores ireais, sonhos tecidos com esperanças, fios de paixão que foram bordados em devaneios e fartura. Seus cabelos eram negros como a noite sem lua, e suas delicadas mãos carregavam um leque cor de onda.

Andando sobre as águas veio a minha frente, ainda pisando sobre ondas que quebravam, estendeu suas mãos pedindo sua concha, olhando meus olhos profundamente, começou a falar, mas filha sua voz era doce como o aroma das glicínias, e tão delicada como o broto do bambu que nasce contra o vento indomado, quando entreguei a ela, ela sentou sobre as águas.

Ela me disse coisas, me falou sobre o mar, sobre o amor, sobre as perolas e sobre a canção que chamamos de vida, uma melodia calma e curta para Deuses, porem para o Homem que a vive, longa e turbulenta.

Nunca me disse seu nome, a dama, porem me deixou presente, antes do sol nascer sobre nossas costas, recebi uma fita azul, feita de um material que nunca tinha visto, ao tocar em minha pele, a jovem dama se desfes em neblina, que espalhou sobre a praia.

Olhando para o sol que nascia, e par a fita em minhas mãos, vi um barco cheando perto da praia, e um amigo, pescador de longa data, chamando meu nome entre a nevoa.

Ele me disse que fiquei desaparecido por 3 dias, e que meu barco tinha chegado a costa, e que estavam me procurando a algum tempo, me levaram para casa, e adormeci, com a fita azul em meu braço minha filha.


4 – DESFECHO
Paixão, saudade e revelação.


Passaram-se dias, meses e minha vida continuou como a de todos na pequena vila, me casei com a filha de um lavrador, sua mãe meu anjo, e vivemos nossas vidas.

Mesmo tentando de tudo, sua mãe não engravidava, íamos ao templo para orar, mas não conseguíamos a benção que queríamos.

Numa noite, enquanto eu fazia amor com sua mãe, pude ver o contorno de nossos corpos na parede em nossa volta, e olhando para meu braço minha filha, pude ver a fita azul, mergulhando sobre o corpo de sua mãe, adentrando sua pele, e invadindo seu útero.

Com o Sol que viajava sobre o Céu as estações se passaram, e finalmente chegou o momento de seu parto, o inverno tinha chegado calmo, e chuvas tingiam o céu, o frio invadia as casas, e num parto muito difícil você chegou ao mundo, uma tempestade, assim descreveu a parteira para mim.

Chegando no quarto onde você nasceu, senti um súbito peso, o ar denso, um choro forte mesclado com o choro fraco de algumas mulheres, olhando com alegria pude ver você, pele branca como a neve, olhos azuis intensos, miríades de sonhos, porem que me lembravam o passado.

Olhando para o leito, percebi minha mulher, sua mãe, tão branca como você, porem inerte, como uma rocha sobre um mar de lagrimas.

Te recebi nos braços, e percebi a verdade.

Você cresceu minha filha, e a cada dia era mais evidente, mais tenebroso e maravilhoso a similaridade.

Seus cabelos eram negros e poderosos, sua pele cheirava ao mar, seus olhos lembravam o céu do meio-dia, azul intenso, porem suave.

Minha filha, eu posso ser seu pai, e sua mãe pode ter dado a luz a você, porem, so posso dizer que...


5 – Fim
Ondas, conchas, adeus.


Antes de terminar a frase derradeira, a verdade final, sentiu a leveza de um corpo velho, sentiu o céu se mover e se tornar mar, e não percebeu quando caia, olhando rapidamente para trás, viu o rosto de sua filha, tentando segurar seu corpo, porem ao simples partir do tecido de suas vestes, caiu no mar, decendo vertiginosamente para o desconhecido azul, com um único arrependimento e um único sonho, não poder contar a verdade a sua filha, mas ir aos braços do mar, sua lapide liquida e salgada, porem estaria mais próximo da jovem misteriosa.

Olhando seu pai morto, porem afundando nas águas do mar, remou até a costa, a costa mais próxima, da falésia mais próxima, da ilhota mais próxima e chorou copiosamente nas águas do mar.

Sentiu uma mão delicada em seus ombros, um suspiro carinhoso, e olhou para trás.

Ali atrás dela, estava uma senhora, com roupas belas, negras como as profundezas do mar, olhando para ela, a senhora começou a falar.

- Criança do mar, não chore, seu pai estará feliz ao lado de seu verdadeiro amor. A anos, quando nesta ilha, ele encontrou a dama do mar ele se apaixonou por ela, e ela por ele, porem, esse é um amor proibido, uma deusa, e um mortal.

- a fita azul era a prova do amor deles, porem, era mais que isso, era a consumação de um sonho. Saiba criança, quando duas pessoas desejam algo com tanta intensidade, ela ocorre, e assim você nasceu filha de três pessoas, seu corpo feito por sua mãe humana e seu pai pescador, sua alma e mente feita pela donzela do mar, e seu pai poeta.

A jovem olhou à senhora com intensidade, chorando as verdades nunca contadas, perguntou quem era ela, e porque conhecia tanto sobre sua familia.

A senhora fitou o horizonte e contou o fim de uma trama a muito tecida.

- Criança, sou uma vendedora de sonhos, vendo aqueles que desejam o que mais desejam, na verdade, os meios para conseguirem. A seu pai uma concha de prata, a Dama do mar uma fita dos Sonhos.

Assim, seu pai pode conhecer o amor, porem perde-lo e só reconquista-lo na hora da morte, quando fosse envolto pelo ser amado, e a Dama do mar poderia ter uma filha, mesmo que nunca pude-se vê-la.

Criança, a dama da água, o Kami dessa bela praia preferiu permanecer sem sua forma humana pela chance de ter uma filha. Seu pai soube do preço e do que ganharia, teria você, filha de um Kami e de um humano, e nunca passaria fome dos filhos do mar, porem sua mãe teve preço maior, teria uma filha humana, porem nunca a criaria.

A jovem chorava como o céu, que negro com nuvens carregadas chorava pelos destinos que ser abriam.

A Velha senhora olhou para ela e virando por trás de uma arvore desapareceu, tendo cumprido seu doloroso trabalho.

A jovem olhou para o mar, para as nuvens que revoltas sopravam trovões, e olhando as ondas que viam aos seus pés, começou a chorar. Dizem que se chegar perto da ilhota das lagrimas, ouvira o lamento eterno da jovem, e ao tentar se aproximar da ilhota, o mar da praia de Ikei, mãe da jovem dama, afastara sua embarcação com as ondas.

Dizem porem que a vendedora de sonhos continua caminhando pelos caminhos do mundo, buscando compradores para seus exóticos produtos.


FIM


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Oi gente, espero que tenham gostado desta tambem, se gostaram, deixem um comentario e me adicionem, e se não gostaram deixem tbm um comentario.

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